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Opinião – Bichos de Miguel Torga

A minha mulher trouxe uma cópia bonita deste livro quando chegou aqui no Reino Unido, há anos. A sua beleza não é porque a capa é colorida ou chique, mas sim por causa da simplicidade da capa. É branca com o nome do livro em letras vermelhas e o nome do autor em letras pretas. A contracapa é completamente limpa, sem números, sem palavras, sem código de barras.

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Tentei lê-lo um ano atrás e o resultado foi uma humilhação. Estou exagerando, mas podes crer que não entendi patavina. No entanto, hoje em dia, o meu português está muito melhor. Consegui ler muito com a ajuda de um dicionário. Assim como o “A Costa Dos Murmúrios”, havia umas palavras desconhecidas que não se encontravam no dicionário porque o seu vocabulário é muito “rural”, e muito antiquado. Até uns amigos portugueses disseram-me que tiveram problemas com as obras do Torga. É isso que faz o livro ficar mais interessante!

Li o livro dentro duma semana. Às vezes, lia rápido em voz alta, para praticar a leitura, a pronuncia e a compreensão. Entretanto, acenei ao comboio de vocabulário enquanto ele passava à minha frente. Noutras vezes, lia mais devagar e fiz grandes esforços para entender tudo.

Não entendi tudo. Claro que não, mas segui o enredo (mais ou menos) da maioria dos contos e havia momentos de claridade em que conseguia ver a beleza do seu estilo. Mas havia poucos momentos como esses. O que mais chamou atenção foi o seu método de terminar uma historia. Não quero dar “spoilers” mas o ultimo parágrafo do conto “Morgado” foi arrebatador!

E, ainda por cima, o último conto do livro deixou-me sem palavras. A historia decorre na Arca de Noé. Na Bíblia, Noé enviou um corvo para buscar alguma terra não inundada, mas o corvo não voltou. Desesperado, Noé mandou uma pomba em vez do corvo e enfim a pomba voltou para a arca com umas folhas. Mas o enredo do conto de Torga é bastante diferente. O Corvo é um rebelde contra Deus e contra o sicofanta Noé. O pássaro preto não aceita o seu destino, preso num barco por causa dos pecados dos seres humanos. Arrisca a sua própria vida para voar longe da arca. Noé não ousa contar a verdade a Deus por causa de sua covardia. Compreendendo a autonomia do corvo, Deus tenta destruí-lo com ondas e com raios e… ah, desculpa, eu disse que não queria dar spoilers…

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Legendas

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Uma Carta Sobre Carne

Londres 22 de Novembro de 2017

O Dono
Milliways
O Fim Do Universo
1200-212 Espaço

Excelentíssimo Senhor,
Queria apresentar uma queixa.
Jantei ontem com uns amigos no seu restaurante.

 

Por acaso, chegámos na hora certa antes do fim do universo. O céu estava flamejante com relâmpagos em toda parte enquanto as estrelas foram arrancados por forças incalculáveis, tudo o qual era satisfatório mesmo.
Dito isso, havia uma problema com a nossa encomenda. Pedi bife da casa. Fiquei à espera durante cinco minutos até o empregado voltou com algum espécie de criatura qualquer e convidou-me “conhecer o carne”. O bicho era muito gordo com muitas pernas mas não pôde andar. Ainda por cima, descobri que podia falar fluentemente!

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Começou dar conselhos por volta do seu corpo, e quais partes seriam mais saborosas. Eu disse-lhe que não queria comer algo que queria ser comido, mas o bicho respondeu que isso modo da vida não era muito simpático. não quero ser leccionado por um animal!
Queria pedir um reembolso duma metade do preço da refeição. O que mais dava jeito era se o senhor pudesse meter esta quantidade de dinheiro no banco hoje. Então, quando visitar o restaurante mais uma vez ao fim do universo, irei recolhê-lo, e espero que o juro ganhado pela quantia deva me tornar milionário!

Os Melhores Cumprimentos
Arthur Dent

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Key Learnings 8 – MiniWriMo Gleanings

Jotting down a few notes from the feedback I’ve had on my epic sci-fi story so far:

Thoughts and Memories

I keep getting mixed up about how to use lembrar vs lembrar-se.

Lembrar is more like “to be reminiscent of”:

Essa música de Panic at the Disco lembra uma música mesmo parecida dos B-52s

….or if you sling a pronoun and a “de” into the mix, “remind”:

Essa música de Panic at the Disco lembra-me duma música mesmo parecida dos B-52s

Lembrar-se is most commonly “remember” and usually takes de:

lembrei-me dalguma coisa

…although I’ve seen it with “que”:

“lembrei-me que precisava…”=”I remembered that I need to…”

…or with nothing at all:

“para eles que se lembram”=”for those who remember”

Lembrar-se can have to do with a consciousness or awareness of something as well as actual memory. There’s another verb – recordar-se which is more specific and ONLY means to remember.

Persons

This is something I sort of new but keep forgetting because it’s so different from my own way of thinking:

“It was me who did that” isn’t “Foi eu que fez isso” as it would be in english but a more logical “Fui eu que fiz isso” (“I was me that I did that”).

On the other hand, “Está na hora” (“It’s on the hour”) never becomes “Estamos na hora”, it always stays in first person singular.

Fazers on Stun

I’ve been using “Faz-me pensar de…” (“It makes me think of”) but it seems you can’t use the same trick with adjectives “Faz me cansado” (“It makes me tired”) but you have to have a verb in there: “Faz me ficar cansado” (“It makes me get tired”), although actually now I’ve written that, there are better ways of saying the same thing.

 

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Random Lyrics Post: Emo De Janeiro

Tristeza não tem fim

Felicidade sim

which means

Sadness doesn’t end

Happiness does

Great eh? It’s from “A Felicidade” by Tom Jobim and it’s got more angst packed into 6 words than the whole MCR back catalogue (but don’t tell my daughter I said so!)

 

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Fado, Bossa Nova e a Minha Nova Professora

23596207_143255316432773_8327869766500876288_nHoje, fui até ao Barbican Centre para ver um concerto de música lusófona de Portugal e do Brasil. A fadista Carminho está quase ao fim dum série de concertos nos quais ela canta as obras de Tom Jobim. Lamento que não tenho um grande conhecimento de musica brasileira, mas conheço o nome de Jobim, e dois membros da banda tinham o mesmo nome porque são os netos dele (ou.. Um neto e um filho…? Não sei…) além duma baterista e do violoncelista Jaques Morelenbaum.

A maneira como ela cantou era muito interessante. Não tenho certeza de todo, mas acho que ela tinha escolhido um estilo muito parecido com o estilo nativo de portugal. Ou seja, cantou os poemas num sotaque português, numa maneira típica da tradição do fado, mas com um fundo de música brasileira. Até pediu ao Chico Buarque para mudar umas palavras duma canção que escreveu com Jobim porque a Carminho não teve vontade de cantar um canção de amor com “você” em vez de “tu”.

23594145_192692784626508_2823717886453874688_nTambém cantou dois fados dedicados ao Jobim e um outro escrito por uma poeta brasileiro, Vinicius de Moraes.

Depois do concerto, comprei um CD e levei-o à mesa onde a Carminho autografou as compras das fãs dela. Falei um pouco com ela em Português e pedi-lhe para escrever “boa sorte no exame” no CD mas ela mudou a frase a “… Para o exame”.

Sabes o que é que isso significa? Sim. Carminho corrigiu a minha gramática. Carminho é a minha professora agora. Adeus italki, a minha nova professora irá ensinar-me tudo!


Obrigado JArmando

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Meta os Papéis em Ordem

transferirJá visitei o consulado português com a minha mulher duas vezes. Da primeira vez, exigiram que ela me levasse com ela. Na segunda vez (exactamente com o mesmo propósito) eles zangaram-se com ela porque “mas por que raios de tolice havia de trazer o marido com ela? Mas além de maridos, eles também se contradizem na questão dos papéis. Cada vez pedem papéis diferentes: o seu certificado de nascimento, o meu certidão de óbito (epá! Ainda não morri, apenas cheiro assim!) uma fotografia dum veado, o ás de espadas, uma cópia d’ O Livro do Desassossego…
Tem de se transformar em Hermione Grainger com uma mala mágica em que possam caber todos os seus pertences no caso dos funcionários lhos pedirem.

 

Obrigado Fernanda, Sofia e Celso pela ajuda

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Uma Conversa Com Uma Brasileira

Hoje de manhã, madruguei às 4 e fui para estação de comboios (o “tube” ou metro de Londres). Estava a ler o “Bichos” de Miguel Torga. É um livro português (um clássico, acho eu) escrito em língua bonita, mas com vocabulário incomum das áreas rurais, e ligeiramente antiquado mas gosto dele, e a capa é tão bonita, e tão simples que não pude resistir!
Ora bem, depois das primeiras duas páginas, uma mulher no banco à minha frente disse “desculpe” (mas disse-o em inglês) “você fala português?”
A pergunta parece um pouco parva uma vez que estava a ler este clássico da língua portuguesa e a franzir a testa com tanta concentração.
Capa-para-estepe---Bandeira-Brasil---EcoSport-CrossFox-Doblo-Spin-Activ-AirCross-9290487A mulher era uma brasileira, a viajar sozinha. Tinha chegado o momento de voltar para casa mas tinha algumas dúvidas sobre a rede de transportes porque tinha de chegar ao aeroporto antes das oito. Normalmente sou mais do que inútil em situações deste tipo mas, por acaso, consegui ajudá-la. Então falámos durante uns minutos em português. Estávamos sentados num comboio o que era uma problema porque ela usou a palavra “trem”, e havia outras diferenças tal como “hora de rush” em vez de “hora de ponta”, mas conseguimos comunicar sem problemas e ela contou-me o que acha engraçado no sotaque inglês. A única coisa que me fez ficar ligeiramente envergonhado foi o momento em que saí da carruagem. “boa sorte e boas viagens” disse eu. Ela respondeu com alguma coisa que não percebi de todo.
Hum… “o-o quê?” gaguejei.
Repetiu, e acrescentou “Good morning!” e apercebi-me de que não tinha entendido a frase mais simples de sempre “Bom Dia” porque a maneira de pronunciar o D brasileiro me é tão desconhecida!

 

Obrigado a Fernanda e Vanessa pela ajuda

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Opinião – Os Livros Que Devoraram o Meu Pai

#UNCORRECTEDPORTUGUESEKLAXON

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Este livro era uma grande surpresa. Só comecei de lê-lo porque o Bichos de Miguel Torga pode ser um pouco cansativo para um aluno como eu. A historia é dum homem que perdeu o seu pai, não ao morte, mas sim aos livros no sótão:

“E foi nessa tarde que ele, de tão embrenhado, tão concentrado na leitura, entrou livro adentro. Perde-se na leitura. Quando o chefe da repartição chegou à secretaria do meu pai, ele já lá não estava. Havia, em cima da mesa, uns impressos do IRS e um exemplar da A Ilha do Dr Moreau aberto nas últimas páginas.”

O protagonista entra no mundo literário à procura do seu pai, a viajar de livro para livro, e no caminho encontra um cão (que ele acredita seja o Edward Prendick, herói do livro “A Ilha do Dr Moreau” de Jules Verne), o senhor Hyde, o Raskolnikov do “Crime e Castigo” e outros personagens da literatura do mundo. O livro é curtinho, com capítulos curtos também. Lê-se muito bem, muito suave, e (qual é o mais importante para mim!) muito fácil. Quase nunca precisei do dicionário e consegui rir as piadas e os absurdos da historia sem explicação. Já tenho mais um livro pelo mesmo autor e já meti-o perto do pináculo do gigantesca montanha que chamo o meu TBR.

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A Costa Dos Murmúrios – Opinião

Este texto era para ser uma opinião sobre um livro mas acabou por se tornar uma dupla-opinião, sobre um livro e um filme. A razão para esta decisão vai se revelar em breve.

17162622Comecei a ler “A Costa Dos Murmúrios” de Lídia Jorge no inicio de Outubro, mas custou-me muito entender o enredo. O livro desenrola-se em Moçambique, no principio dos anos setenta, durante a guerra colonial e tem que ver com o horror inerente a um sistema daquele género, baseado em violência e arrogância que envenena as vidas das pessoas assim como o álcool metílico envenenou as pessoas que beberam o vinho logo do início do livro.

Entendi cenas, sim, diálogos e parágrafos, mas é escrito num estilo muito literário que me faz lembrar os romances de Graham Greene e de Joseph Conrad. Por isso, não consegui entender o enredo inteiro.  Ainda por cima, Lídia Jorge utiliza muitas palavras desconhecidas. O meu dicionário ficou sempre perto de mim. Porém, às vezes,  até o dicionário não chegou. Por exemplo, havia uma palavra “mainata” que não conhecia. Não a encontrei no dicionário, e a minha mulher não sabia o significado. Hum, uma mulher deu nomes às mainatas e mainatos. Os nomes eram nomes de vinhos. Um deles, Mateus Rosé, morreu. Perguntei ao Google.

Exmo Google

O que é que é uma mainata por favor?

Obrigadissimo

Colin

O Google respondeu com imagens de pássaros pretos que se chamam “mynah” em inglês. Falam ainda melhor do que os papagaios. Boa. Durante o resto do livro, imaginei estes pássaros de estimação lá em casa.

Quando cheguei ao fim, decidi ver o filme para que pudesse ter certeza do que é que tinha acabado de ler. Imediatamente, vi o meu erro. Um(a) mainato/a não é um pássaro, mas sim um empregado doméstico. Talvez seja uma palavra especifica do ultramar, e só significa um empregado negro. Não sei. Senti-me ridículo por ter feito um erro tão estúpido!

Há outros aspectos do filme e do livro que me deixaram confuso. Por exemplo, ainda não entendo o relacionamento entre a escritora e a protagonista, Evita. A Autora escreveu o papel dela no primeiro capitulo mas não percebi exactamente o que é que ela queria dizer. Gostei do livro mas estou muito contente por ter visto o filme também porque ajudou-me muito a entender a história.


Queria agradecer a Fernanda pela ajuda com as correcções neste texto